LEITURA DIGITAL

Como o mercado de livros se adaptou à internet por vias não-convencionais – e o que ele pode esperar do futuro Alexandre Matias. Graças à web, diferentes gerações descobriram – ou redescobriram – o prazer da escrita e da leitura. Muito antes do MP3, dos programas on-line e do YouTube, a interface da rede era formada basicamente por textos e imagens. Logo depois de os veículos de comunicação impressos terem se voltado para a internet, foi a vez do mercado editorial. Mas, enquanto jornais e revistas se digitalizaram de forma pontual e prática, o mundo dos livros não chegou pelas vias convencionais. De textos em domínio público digitalizados por amantes da literatura a novos escritores que descobriram no formato blog uma plataforma para se lançar, a Galáxia de Gutenberg começa a invadir os meios digitais. E, ao contrário do que aconteceu com as gravadoras, que não se adaptaram à internet e em vez de trabalharem com ela preferiram combatê-la, o mercado editorial vem aos poucos cogitando possibilidades para acompanhar as mudanças. Veja a seguir um resumo da evolução da digitalização de livros e saiba um pouco sobre o que vem por aí.
E-BOOKS.
O conceito de “livro eletrônico” é tão antigo quanto a própria web. Na medida em que começou a se popularizar, a rede permitiu que os próprios usuários pudessem digitalizar obras inteiras para serem lidas no computador. Mas ler e escrever textos longos no PC era um martírio – na verdade, ainda é. O problema do direito autoral também era incipiente quando, nos anos 1990, surgiu o Projeto Gutenberg, que semeava a criação coletiva do século 21: buscava digitalizar livros e peças que haviam caído em domínio público. Não demorou muito para os internautas descobrirem características específicas do texto digital, como a possibilidade de incluir links e outras inúmeras ferramentas multimídia – além, por exemplo, da vantagem de o único espaço ocupado em casa ser o do disco rígido.
PDF
O “livro eletrônico” ainda não tem formato definido. Desde os primórdios da internet, a leitura podia ser feita diretamente nos programas de navegação na web no formato HTML, mas os textos eram salvos de diferentes formas nos computadores – ou no próprio formato web, como documentos do Word da Microsoft, ou o texto puro, sem as imagens. Cada uma dessas modalidades trazia mudanças na diagramação e, consequentemente, na leitura em cada tipo de computador. Afinal, era uma época em que não havia uma padronização tão ampla entre plataformas. Vendo esse cenário, a companhia de software Adobe criou o formato PDF, que permite manter o número de páginas e a diagramação dos livros como eles haviam sido pensados para ser consumidos – e não apenas como uma lista interminável de texto. O formato foi amplamente adotado – inclusive pelo mercado editorial em papel, que passou a usar o PDF como uma espécie de fotolito digital, queimando uma das etapas da impressão de livros.
E-READERS.
O passo seguinte rumo à leitura digital foi “tirar” o livro do computador. A leitura na tela pode até ter se tornado comum com a web, mas ler no monitor ainda é um processo doloroso. Por isso, várias empresas têm criado dispositivos que simulam um livro em papel – em peso e formato – para facilitar a leitura. O primeiro deles foi o Sony e-Reader, lançado em 2006. No ano seguinte, a loja on-line Amazon lançou o Kindle, o leitor de e-books que teve melhor recepção no mercado até agora. O aparelho recebeu elogios pelo aspecto tecnológico e críticas em relação ao modelo de negócios, pois ele só permite que se usem livros comprados na Amazon. A mesma coisa de um iPod que não tocasse MP3, mas somente as músicas compradas via Apple.
EXPERIMENTOS
O aspecto interativo da literatura digital fez que uma série de autores experimentasse as possibilidades do formato: da inclusão de elementos multimídia em livros feitos para serem lidos na tela a romances cujo enredo se desenrola no Google Maps ou são escritos inteiramente no Twitter, rede social em que seus usuários só podem escrever textos com até 140 caracteres. A editora inglesa Penguin criou uma divisão apenas para explorar essas possibilidades.
NO CELULAR
Com a evolução do telefone móvel para um pequeno computador portátil, foi natural a invasão do celular pelo texto digital. O dispositivo ainda está longe da praticidade e do conforto ambicionados pelos e-readers, mas sua onipresença já foi flagrada por editores, que o utilizam de formas diferentes: no Japão, por exemplo, a população lê mangás durante as intermináveis viagens entre o trabalho e a casa e há um boom editorial de romances escritos com capítulos curtíssimos e enviados via SMS. Cada vez mais grandes grupos de comunicação adaptam o conteúdo de seus jornais e revistas para serem lidos pelo celular.
AUDIOLIVROS
A princípio voltados para deficientes visuais, os livros lidos – ou audiobooks – estão renascendo por causa do excesso de leitura em tempos de internet. Uma fração desse novo público leitor não aguenta mais ler o tempo todo e passa a buscar obras gravadas por seus autores ou vozes preferidos. Muitas pessoas aproveitam também as horas perdidas no trânsito das grandes cidades para ouvir histórias. No mercado brasileiro, estão disponíveis ótimos títulos lidos por Nelson Motta, José Wilker e Paulo Betti, entre outros.
PAPEL ELETRÔNICO.
A tecnologia do papel eletrônico foi criada pelo PARC (Palo Alto Research Center), um centro de desenvolvimento tecnológico da Xerox localizado na cidade de Palo Alto, na Califórnia, Estados Unidos. Desse centro saíram, por exemplo, o mouse e o protótipo do Windows. A tecnologia para o papel eletrônico existe desde os anos 1970, mas só começou a ser desenvolvida de modo mais intenso a partir da virada do século passado, quando o uso comercial desse suporte começou a ser encarado como uma possibilidade. Embora seja a base dos leitores eletrônicos e do Kindle, o Santo Graal para esta nova etapa do mercado editorial é um material mole e flexível como o papel, que não emite luz como os monitores atuais, mas funciona como uma tela de computador, em que texto e imagens são simplesmente recarregados à medida que as páginas são “viradas”. A pergunta inevitável é: como se folheia um livro eletrônico? Com as pontas dos dedos, em um botão ou num piscar de olhos? O papel eletrônico, na verdade, é só o começo de uma nova história. ©

Revista da Cultura - Edição 19

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